“Temos de aprender e ensinar sobre a busca da concepção da informação digital”. Entrevista com Charlley Luz, Consultor em estratégia de transformação digital.

Temos o prazer de entrevistar Charlley Luz, Consultor em estratégia de transformação digital que possui uma atuação diversificada baseada na área de Organização da Informação. Desenvolve projetos de criação de instrumentos de controle terminológico e metodologias, desde 2014 desenvolve o Monitoramento de Logs de Busca do portal Sebrae. Atua há mais de 15 anos na área web. É sócio fundador da Feed Consultoria e Serviços de Marketing LTDA. Professor e orientador em disciplinas de pós-graduação na FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

(Archivoz) Charlley Luz você é publicitário e depois foi para o mundo dos arquivos e hoje é consultor em estratégia de transformação digital. O que te levou a fazer esse caminho? E como essa trajetória te ajudou a pensar nos arquivos digitais?

(Charlley Luz) O caminho foi orgânico, acabou sendo construído pelo contexto empreendedor e profissional onde estive inserido. Aos 20 anos abri uma empresa com mais três sócios, era uma agência de publicidade em Porto Alegre, cidade onde nasci. A agência funcionou por seis anos, até que cada um decidiu fazer outros projetos. Neste meio tempo estava surgindo a web que conhecemos, sendo que a www estreou no Brasil de forma comercial a partir de 1995. Na agência me relacionava muito com os clientes e começou a ficar frequente os pedidos para criar os primeiros sites das empresas (os cartões de visita virtual como chamavam).

Esta realidade me levou a procurar formas de trabalhar com a web, aí cheguei até a Arquitetura de Informação (AI). Minha segunda empresa fazia sites e a AI passou a ser uma realidade, era um diferencial para os projetos. Certo tempo depois resolvi aprofundar-me nos conhecimentos da informação digital, foi quando soube de um curso novo que havia aberto na universidade federal do meu estado (Rio Grande do Sul). Se chamava Arquivologia. Lendo a ementa no material do vestibular, certas palavras se destacaram: metadados, gestão de arquivos digitais, estruturação de informação web. Ou seja, pela publicidade cheguei à internet e pela internet cheguei à Arquivologia.

Hoje sou consultor em informação digital e portais corporativos e, aliado à gestão do conhecimento e à estratégia das empresas e instituições, desenvolvo projetos de gestão documental e de gestão da informação em ambientes digitais corporativos, chegando à realidade da Transformação Digital. A arquivística, em meus projetos, é um ponto crucial na estruturação de serviços de informação. Sempre aplico uma abordagem arquivística em qualquer projeto de ambiente digital.

(Archivoz) Quais são os desafios para os profissionais arquivistas que trabalham com arquivos digitais?

(CL) Vou comentar três desafios. O primeiro desafio certamente é conseguir demonstrar o valor e a importância de tratar os documentos de arquivo de uma forma diferenciada da informação e dos dados digitais. Há muita confusão ainda com estes conceitos. No Brasil temos hoje um projeto de lei, por exemplo, o PL 7920/2017, que diz que um documento depois de digitalizado com autenticação por assinatura eletrônica poderá ser eliminado. Assim, sem pudores, o senador que propôs e os deputados que sugeriram alterações não diferenciam um documento arquivístico de informação autenticada. E este é um senso comum, infelizmente. Nas consultorias que realizo, além de ter de introduzir novos conhecimentos e metodologias na cultura do cliente também é necessário um processo de evangelização (no sentido educacional), capaz de mostrar as diferenças entre estas entidades informacionais.

Outro desafio necessário é o envolvimento com a equipe de Tecnologia da Informação. Por muito tempo as equipes de TI tem tomado para si a função de definir os ambientes digitais. Por muito tempo temos negligenciado nosso papel de definidores de requisitos para as plataformas digitais. Temos de encontrar o equilíbrio entre estas duas funções. A equipe de TI precisa atender aos requisitos arquivísticos sob pena de não conseguir garantir a autenticidade e a fidedignidade documental. No entanto, muitas vezes não conseguimos explicitar isso da forma adequada ou empoderada.

O terceiro desafio, para mim, é acompanhar o desenvolvimento da tecnologia e conseguir incorporar novas ferramentas ao entorno digital de um arquivo. Falei sobre isso em 2017 no IV TOI (Congresso Internacional de Organização da Informação em São Paulo que ocorre junto ao CONTECSI – International Conference on Information Systems and Technology Management). Além da estrutura de um sistema de gestão de documentos arquivísticos e dos repositórios digitais (arquivos permanentes), temos os ambientes de negócio (os vários sistemas que apoiam os processos corporativos) e os ambientes de difusão e acesso (que podem incorporar as intranets e os portais corporativos). Nestes ambientes o profissional da informação deve incorporar disciplinas como a Arquitetura de Informação, boas práticas da UX – User Experience – para as interfaces, definir a estruturação da informação e até unificar os metadados descritivos numa Ontologia (a Ontologia Digital Arquivística que abordei em meu mestrado na ECA-USP) que é capaz de representar o contexto de produção e uso documental.

(Archivoz) Você escreveu o livro Arquivologia 2.0: a informação digital humana já faz oito anos, o que mudou para a arquivologia nesse período?

(CL) Muita coisa! O livro Arquivologia 2.0 surgiu numa época onde a arquivologia ainda tratava o documento digital como documento eletrônico, ou seja, era muito mais focada na gestão do suporte documental e menos no uso, na descrição, nas atividades de curadoria mesmo. Escrevi entre 2007 e 2010, quando fiz o lançamento no IV Congresso Nacional de Arquivologia no Espírito Santo. De lá para cá tivemos uma série de diretrizes e normas que avançaram muito por uma visão mais ampla da área. Por exemplo, a norma para os Repositórios Digitais Confiáveis RDC-Arq foram lançadas, no Brasil, somente em 2014. Na prática, estão surgindo hoje os projetos de RDC-Arq no país.  Assim como o E-Arq Brasil, que são os requisitos para sistemas de gestão documental, que é de 2011. Por isso que o Arquivologia 2.0 foi livre em trazer outras considerações sobre o universo digital.

Foi possível abordar, por exemplo, a gestão do conhecimento, a arquitetura de informação, colaboração 2.0, as interfaces de sistemas digitais, as competências do profissional de arquivo em intranets e portais corporativos. Muito por conta da onda da web 2.0 que impactava em cheio as definições acerca do universo digital, o livro trouxe uma visão mais holística e menos metodológica da questão digital.

Em 2016, ao atingir 20.000 leituras do livro no portal da editora, liberei cópias online para a disseminação da publicação. Hoje com uma simples busca na web é possível encontrar uma cópia para leitura de forma gratuita. Acredito que ele se propõe a isto, a ser 2.0, por isso acessível. Não é um livro acadêmico, mas sim pragmático onde incorporo uma atuação arquivística a tudo que vi como consultor de ambientes digitais no mundo corporativo. Através da arquitetura de informação, planejamento de portais corporativos e ambientes digitais, traço os caminhos possíveis para uma abordagem 2.0 no universo das informações arquivísticas, aquelas que são resultado da interação entre pessoas e sistemas nos ambientes corporativos.

(Archivoz) No seu livro Primitivos Digitais: uma abordagem arquivística, você faz várias reflexões baseadas nas teorias arquivísticas e levando para o mundo da informação. É esse o caminho que o arquivista deve tomar para lidar com esse momento que vivemos?

(CL) Documento e informação são duas entidades diferentes, mas sempre se confundem. Alguns acham que informação substitui o documento. E não é bem assim. A informação pode circular livremente e ser combinada com novos dados, gerando assim novas informações. O documento é informação fixada, congelada. É importante ter estes dois conceitos muito bem definidos e distintos. A partir daí, é possível imaginar como tratar destes dois conceitos de forma diferenciada nos ambientes digitais. É isso que trouxe no Primitivos. Ao verificar como nossas informações primitivas digitais são geradas e utilizadas, por meio de novas tecnologias e funcionalidades, busquei traçar competências e conhecimentos básicos para estas novidades.

(Archivoz) Em 2017 o livro Primitivos Digitais: uma abordagem arquivística foi traduzido para o espanhol, como tem sido a recepção dessa obra nos países de língua espanhola?

(CL) Tenho recebido contatos sobre a obra. Foi um projeto latino-americano, de fato. Contei com a colaboração de colegas da Colômbia e de El Salvador. O livro pode ser baixado gratuitamente pelo meu perfil no site Academia.Edu e ResearchGate.

(Archivoz) Nós somos os primitivos digitais, o que podemos aprender e ensinar sobre esse universo?

(CL) Um dia imaginei: como seria o futuro, ao pesquisarem as informações digitais que geramos agora? Foi aí que pensei: hoje somos os primitivos digitais. Vamos fazer como nossos antigos primitivos, que deixaram as pinturas rupestres nas paredes? Pensei que não precisamos, pois nossas paredes hoje são outras, são paredes digitais e podemos deixar para o futuro não somente informações esparsas, mas sim conhecimento, ideias, sentimentos e informações mais substanciais do que nossos antepassados. Para isso, temos de aprender e ensinar sobre a busca da concepção da informação digital: ela precisa ser estruturada, seja através de metadados, da arquitetura de informação e de outras técnicas aplicadas a ambientes digitais que surgem a todo instante.

Hoje estamos no olho do furacão. O Tesarac, que é exatamente este período que passamos agora: tudo é diferente, tudo é invertido, até que suja uma nova ordem. Jovens são conservadores e idosos são libertários. Jovens ensinam os idosos a utilizarem a internet. Passamos por momentos na história em que a sociedade é a mudança na prática, num ritmo frenético. É nosso dia de hoje. É o mundo 2.0.

(Archivoz) Como tem sido atuar como consultor em instituições que passam pela transição de preservar documentos físicos e documentos digitais?

(CL) É um desafio duplo. Mesmo que sejam documentos, as relações de itens diplomáticos são diferentes. Não existem metadados em documentos registrados em suportes diretos, que não precisam de uma máquina ou sistema para ser lido. O documento digital traz mais desafios, pois a preservação digital trabalha com mais elementos que os documentos tradicionais.

Nas minhas consultorias acabo trabalhando com dois públicos diferentes. Pois os documentos digitais são geridos geralmente pelas equipes de TI, enquanto os outros documentos são geridos por profissionais administrativos, quiçá profissionais da informação. Para cada um tem soluções diferentes, técnicas e metodologias diferentes.

(Archivoz) Qual o trabalho que você mais gostou de fazer? Quais foram os impactos para a instituição e para você?

(CL) Como professor, gosto de tratar de arquivística e de informação digital. Sou professor de Arquitetura de Informação na FESPSP e na ESPM. Ministro disciplinas que já passaram pela Descrição Arquivística e agora a disciplina de Gestão de Repositórios Digitais na FESPSP que é um curso de pós-graduação, o único que trata de gestão de arquivos e documentos arquivísticos na maior cidade da América do Sul. Meu sonho é termos um curso de graduação em arquivologia na cidade.

Em consultoria gostei muito do projeto do portal do Sebrae, onde tive oportunidade de trabalhar desde a estruturação dos metadados, a definição de taxonomias e até com inteligência artificial, na configuração do buscador. Este portal é acessível pelo www.sebrae.com.br. Durante o projeto pude, ainda, exercer um pouco da Arquivoconomia, pois defini requisitos para o novo arquivo central que a instituição estava estruturando. Foi uma experiência singular.

(Archivoz) Você tem se transformado em uma referência no Brasil sobre os estudos dos arquivos digitais. Como você se sente e o que falta no país para que apareçam mais pesquisadores com esse perfil atuante no mercado de trabalho?

(CL) Eu divido minha carreira entre a academia e o mundo corporativo, esse caminho entre a práxis e o conhecimento sempre vai fazer parte de minha vida. Nesse sentido, fico feliz de ter trazido termos como Ambiente Digital e relacionar com a arquivística, ter abordado Arquitetura de Informação como uma competência de um profissional da informação e ter verificado a Ontologia Digital Arquivística.

Ás vezes penso que uma abordagem do contexto informacional para o arquivo é a oportunidade de equilibrar as ações necessárias de um ambiente digital com o ambiente arquivístico. Sinto que talvez esteja antecipando algo que ainda vai ocorrer daqui a alguns anos, mas o fato é que a informação digital impacta no serviço de um arquivo digital. Precisamos cada vez mais fazer este esforço interdisciplinar, dominar a gestão da informação, entender a gestão do conhecimento, aproveitar as tecnologias da informação e aplicar os recursos e princípios da epistemologia arquivística.

Para que apareçam mais pesquisadores e profissionais com este perfil é necessário incentivar a formação continuada e possibilitar o aprofundamento dos estudos que relacionam a arquivística com outras áreas.

(Archivoz) Com todo seu repertório, o que você recomenda para que os novos arquivistas possam atuar de forma coerente com esse mundo digital?

(CL) Recomendo o estudo do quadro abaixo: