“Os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar de forma organizada a memória institucional”. Entrevista com Luísa Alvim, arquivista do Arquivo Municipal Alberto Sampaio – Vila Nova de Famalicão

(Archivoz) O que a levou das bibliotecas aos arquivos? Como uma bibliotecária se transformou numa arquivista?

(LA) Vim trabalhar para o Arquivo Municipal Alberto Sampaio, no município Vila Nova de Famalicão (Portugal), em junho de 2014. Tenho formação na área das Ciências Documentais, na variante de bibliotecas, tendo sido sempre profissional de informação nas instituições deste tipo, há mais de 26 anos. Quando fui convidada a ingressar no arquivo municipal, para trabalhar os fundos mais antigos, foi um grande desafio!

(Archivoz) E como encarou esse desafio?

(LA) Comecei por observar o que outros arquivistas fazem a nível profissional, a inteirar-me de procedimentos, técnicas, normas, etc. Foi um tempo de aprendizagem ainda em processo! Aprendi muito através de conversas, consulta de bibliografia, ações de formação e em 2015 já tinha disponibilizado online muita informação no portal Archeevo do Arquivo Municipal.

(Archivoz) conte-nos um pouco de todo esse processo de tratamento arquivístico

(LA) Comecei os meus trabalhos arquivísticos com a disponibilização da descrição arquivística do Fundo da Administração do Concelho de V.N. Famalicão. Primeiro, construí o Plano de classificação para este fundo, datado de 1856 a 1930 e fiz a sua descrição arquivística até ao nível de unidades de instalação. Esta documentação reflete as funções da Administração de natureza policial e de controlo de diversas atividades, desde o recenseamento e recrutamento militar ao registo de passaportes, passando pela tutela das contas de juntas de paróquia e confrarias. No âmbito da administração local de referir ainda documentos provenientes da antiga Câmara do Couto de Landim e várias Juntas de Paróquia e Juntas de Freguesia, sem esquecer os antigos Julgados de Paz, a Junta Escolar e a Comissão Municipal de Assistência.

(Archivoz) quer destacar alguns dos fundos que tratou?

(LA) Avancei, posteriormente, para trabalhar o arquivo pessoal do patrono do arquivo – Alberto Sampaio (1841-1908). Esta personalidade estudou na Universidade de Coimbra, concluindo o bacharelato em 1863, onde conviveu com algumas figuras notáveis da sua geração, entre as quais Antero de Quental, José Falcão, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, António de Azevedo Castelo Branco e Alberto Teles. Regressou ao Minho, à Quinta de Boamense, propriedade dos seus pais, situada na freguesia de Cabeçudos, concelho de Vila Nova de Famalicão. O seu nome está também ligado à fundação da Sociedade Martins Sarmento. Considerado, no seu tempo, um profundo conhecedor do mundo rural, especialmente no domínio da vitivinicultura, área em que a excelência dos vinhos verdes produzidos em Boamense foram internacionalmente premiados. Foi o autor de As Vilas do Norte de Portugal e, mais tarde, As Póvoas Marítimas, duas obras-primas, das quais a última, sobre as origens da nossa aventura marítima.

(Archivoz) Quais foram as etapas do tratamento do arquivo pessoal de Alberto Sampaio?

(LA) O arquivo privado que aqui refiro é somente a uma parte daquilo que seria o todo da produção de informação desta personalidade. Optou-se por uma organização em Sistema de Informação, pretendeu-se reconstituir o contexto orgânico-funcional e temporal de produção e receção da informação. O modelo sistémico adotado reconstruiu a documentação no contexto orgânico-funcional originário e refletiu a estrutura organizada naturalmente por objetivos atingidos através de funções e atribuições, ações e tarefas de Alberto Sampaio. O arquivo foi completamente digitalizado e disponibilizado juntamente com a descrição arquivística no portal do Arquivo Municipal.

(Archivoz) E outros desafios arquivísticos, quer partilhar connosco?

(LA) Um grande desafio foi trabalhar o fundo da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Famalicão (1890 – 2004), que chegou ao Arquivo Municipal por doação em condições físicas muito más. Neste caso, as minhas tarefas foram desde a limpeza ao acondicionamento, passando pela construção de um plano de classificação, descrição e disponibilização online no portal das imagens dos documentos e respetiva descrição. Este trabalho teve impacto na comunidade local e fui convidada a organizar uma exposição sobre esta Corporação de Bombeiros com base no seu arquivo.

(Archivoz) então esta experiência, ao ter impacto na comunidade local, abriu as portas para novos trabalho?

(LA) Após estes trabalhos, iniciei uma fase de tratamento de espólios familiares de personalidades locais, nomeadamente o fundo de José de Azevedo e Menezes (1849-1938), que foi um erudito que colaborou em variadíssimos jornais: Novidades, O Primeiro de Janeiro, Nova Alvorada, Correio do Minho, Progresso Católico e A Palavra, do Porto, de que foi um dos fundadores. Publicou Ninharias (1911); foi um dos inspiradores da reconstrução da casa de São Miguel de Seide, destruída pelo incêndio de 1915, e que é hoje a Casa-Museu de Camilo. Também todo o seu arquivo já está online no portal.

Atualmente, encontro-me a realizar o tratamento do Arquivo da Casa de Pindela. Aqui também me cabem todas as tarefas arquivísticas: (só não faço a digitalização porque tenho a trabalhar comigo uma colaboradora) acondicionamento e limpeza do fundo de documentos, inventariação, descrição arquivística dos documentos individuais, criação de um Sistema de Informação, carregamento do fundo no software Archeevo. Este fundo tem dimensões enormes, abarca 15 gerações de família do morgadio de Pindela (V.N. de Famalicão) e outos 6 subfundos de famílias que se cruzam com a Casa de Pindela, documentos desde séc. XVI ao século XX. Foi minha opção, trabalhar, no ano 2018 a 2020, a descrição da 14ª geração onde se destacam personagens importantes para a história do concelho e a nível nacional, nomeadamente o Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, e o seu irmão 2º Visconde de Pindela, Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada, e as respetivas famílias e outros relacionamentos profissionais e políticos.

Sempre que possível, trabalho pequenos arquivos de instituições locais e de espólio do município: Rotary Club de Famalicão, o arquivo do Museu da Guerra Colonial, o Projeto do Novo Edifício dos Paços de Concelho, Tribunal, etc. do arquiteto Januário Godinho (1952-1961).

(Archivoz) E perspetivas de futuro? Sente que necessita de uma equipa?

(LA) É com enorme paixão que me dedico a estes trabalhos arquivísticos, não sendo arquivista de formação inicial, penso que me adaptei, estudei e trabalhei para exercer com qualidade as funções que me foram solicitadas neste Arquivo Municipal. Este arquivo tem uma equipa de colaboradores, mas que têm funções só no arquivo administrativo corrente. Tenho pena de não ter uma equipa de trabalho neste departamento dos fundos históricos, exceto a colaboradora especialista na digitalização, que me ajudaria a crescer profissionalmente e a produzir melhores trabalhos.

(Archivoz) Para Finalizar uma última pergunta, Falou diversas vezes em digitalizações. Considera que os arquivos acompanham as novas tecnologias e os arquivistas terão futuro?

(LA) Em geral, os arquivistas precisam se esforçar mais em conhecer e explorar a tecnologia a favor da sua rotina profissional, tanto as novas soluções associadas à digitalização como às tarefas do processo arquivístico. Quanto ao futuro, acredito que os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar, consolidar e armazenar de forma organizada a memória institucional tanto de entidades individuais como coletivas, empresas, associações etc. Cada vez mais a informação tem valor acrescido e a consciência do poder da informação tratada e organizada tem um grande valor estratégico para a tomada de decisão das instituições.