arquivos de escritores

Revisitando o Arquivo do escritor Sousa Costa: os arquivos e a memória dos autores esquecidos

 

Apresentação

Alberto Mário de Sousa Costa nasceu no ano de 1879 em Vila Pouca de Aguiar e faleceu no Porto em 1961. Filho de António de Sousa Costa, escrivão de Direito naquela vila e de Tomásia da Conceição Gomes Costa. Foi nesta cidade que aprendeu as primeiras letras e mais tarde em Vila Real frequentou o liceu, passando a viver nesta cidade com os seus pais. A sua passagem pela Universidade de Coimbra, para frequentar o curso de Direito, foi num primeiro momento efémero, regressando a Vila Real em 1898 ou inícios de 1899. É também em Vila Real que escreve os primeiros capítulos da sua obra de estreia, a novela Os que triunfam (Lisboa, 1901), concluída em Vidago em Abril de 1900.

Sousa Costa foi um escritor prolífico, colaborando intensamente em jornais e revistas nacionais e estrangeiros: Diário de Notícias, O Século (1904) por intermédio de Silva Graça e Schwalbach, auferindo a quantia de 5 mil réis por conto ou artigo, O Vila-realense (1904), Revista Estudos Italianos em Portugal, Primeiro de Janeiro (1910), Jornal O Dia (1910), Revista Eva, Sempre Fixe, O Tripeiro cuja colaboração teve início em 1945, Jornal brasileiro Correio da Manhã, Caras & Caretas Comércio do Porto, Ilustração Portuguesa (1908), Jornal Notícias de Lourenço Marques, A Voz, entre outros. Colaborou ainda, juntamente com D. Emília, no jornal A Época, jornal de existência efémera. Destaca-se, ainda, a sua colaboração com o jornal argentino La Prensa (1923) de Buenos Aires, propriedade da família Gainza, cuja colaboração foi interrompida durante a ditadura de Juan Péron até 1956, mas que retomará praticamente até ao final da sua vida. A sua prolífica atividade como escritor não o limitou apenas a um estilo literário, pois como sabemos é evidente, Sousa Costa cultivou não só o romance, mas também a novela, o conto, a crónica e o ensaio.

A incorporação do arquivo

Passados tantos anos, corria o ano de 2011 quando se deu a incorporação do seu arquivo, na Fundação Ensino e Cultura Fernando Pessoa – Porto. Esta incorporação foi feita através da doação de um familiar do escritor, sensível não apenas à preservação do acervo mas também consciente de que o seu tratamento apenas poderia ser feito por profissionais da informação.

Deste arquivo, ainda só foi tratada a correspondência constante no acervo documental de Sousa Costa e seria imperioso que o restante arquivo tivesse tratamento arquivístico, para futura difusão. No entanto, como se trata de um arquivo privado na posse de uma instituição privada a decisão no acesso a este arquivo não está protegida pela legislação arquivística vigente em Portugal.

Decorreram já cinquenta anos sobre a data da morte do escritor e se este arquivo tivesse sido incorporado pelo Estado Português, a questão da comunicabilidade do seu conteúdo já não seria um entrave à sua consulta, pois o mesmo estaria já no domínio público.

A comunicabilidade de um arquivo pessoal: a correspondência de um escritor

Outro tema pertinente que podemos colocar acerca deste tipo de acervos de escritores é da fronteira entre a esfera pública e privada, pois a linha que as distingue é, por vezes, muito ténue. Por conseguinte, a definição de arquivo pessoal, muitas vezes, confunde-se com a de arquivo privado. Podemos ter arquivos pessoais de cunho público e arquivos pessoais de direito privado, sendo os primeiros sobretudo de titulares que exerceram determinada atividade e deixaram um legado cultural em instituições públicas. Pelo que não deve ser confundível com os direitos de autor que visam proteger a obra e não a vida privada do indivíduo.

Destacamos a correspondência constante no acervo documental Sousa Costa pode ser definida como comunicação escrita passiva (recebida) e a comunicabilidade do seu conteúdo está salvaguardada, pois para além de ter sido adquirida, por herança, pelo Professor Doutor Lemos de Sousa, seu detentor legal, convêm realçar que o seu conteúdo não é susceptível de tocar na intimidade da vida privada quer dos remetentes, quer do destinatário, o escritor Sousa Costa. Por outro lado, decorreram já cinquenta anos sobre a data da sua morte e se o seu arquivo tivesse sido incorporado pelo Estado, a questão da comunicabilidade do seu conteúdo já não seria um entrave à sua consulta, pois o mesmo estaria já no domínio público.

A carta é a comunicação manuscrita ou impressa endereçada a uma ou mais pessoas que desempenha um importante papel no processo de interacção social. É uma partilha que pode ser uma porta aberta para o conhecimento de algo ou de alguém. A prática comunicativa epistolar de Sousa Costa, é como que um laboratório da sua criação literária, é um território fértil para o estudo da sua biografia.

A difusão de um arquivo pessoal

Um outro grande desafio é que o arquivista que tenha entre as mãos um arquivo pessoal é muitas vezes confrontado com o poder do seu criador, o que é completamente diferente dos arquivos institucionais. Sobretudo, os arquivos de escritores que nunca estão inteiramente afastados do seu trabalho e dos detalhes da sua própria vida. Não estando dissociados da sua própria vida, ligam-se muitas vezes aos seus familiares ou herdeiros designados cabendo a estes o destino a dar tal legado.

Não raras vezes, são esquecidos em caixas cobertas pelo pó do tempo acabando por desvanecer-se com a passagem dos anos outras vezes, muito tempo depois, são resgatados do esquecimento e colocados à disposição de profissionais da Ciência da Informação e, por fim, do leitor. Sendo este o fim último do labor arquivístico, difundir o que certamente seria esquecido pelos demais e se alguém teme ser esquecido, um escritor o que mais anseia é ser recordado e sempre lido.