Campinas

A importância das fontes primárias para a pesquisa histórica: o caso da Senzala da Fazenda da Lapa de Campinas (Brasil). Entrevista com a Professora Sílvia Zakia., Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo.

No ano de 2018, a Sociedade Hípica de Campinas/São Paulo/Brasil, em comemoração ao 70º Aniversário do clube, implantou o seu Centro de Memória. A Hípica, um clube poliesportivo, foi fundado em 27/10/1948 numa antiga fazenda de café – a Fazenda da Lapa. A Fazenda está sediada antiga na  sesmaria do Mato Dentro, um instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras destinadas à produção agrícola, destinado a particulares no período da colonização (em Portugal e no Brasil).

Ao identificar os documentos históricos do Clube para compor os acervos do Centro de Memória, os historiadores encontraram uma pesquisa sobre um dos edifícios da fazenda: a Senzala. No imaginário dos associados da Hípica, a escravidão na fazenda era “lenda”. Mas uma pesquisa da Professora Sílvia Zakia, Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, comprovou a existência de escravos na fazenda de café. Com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre essa história, a Archivoz entrevistou a Professora, para falarmos sobre a pesquisa que realizou sobre este edifício e sobre a importância das fontes primárias na comprovação de seus dados, que ainda de acordo com ela, foi fundamental no projeto de restauração do edifício no ano do cinquentenário da Hípica em 1998.

(ARCHIVOZ): Até a década de 1980, a ideia de patrimônio arquitetônico estava relacionada a bens de excepcional qualidade artística, conceito recentemente ampliado e abrangendo também os edifícios considerados testemunhos históricos da nossa memória coletiva. De lá para cá, o que mudou no conceito do patrimônio arquitetônico/histórico?

(S .Z.): Cumpre ressaltar, que no caso brasileiro, o primeiro órgão de preservação do patrimônio foi criado em 1937, SPHAN, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Grosso modo, num primeiro momento a noção de patrimônio arquitetônico esteve vinculada aos bens de excepcional valor artístico e estético. No entanto, o entendimento sobre patrimônio, foi ao longo do tempo, ampliado. A partir, das décadas de 1970 e 80, a noção de valor histórico invocando questões de representatividade e de exemplaridade foi incorporada à conceituação de preservação. Ademais, a criação de órgãos de preservação, estaduais e municipais vem também, nesse sentido, ampliar o escopo de atuação.

Ao lado do patrimônio barroco das igrejas mineiras encontram-se tombados, hoje, hospitais, escolas, palacetes ecléticos, vilas operárias, estações de trem, fábricas, estádios de futebol, enfim, uma variedade de edificações representativas de nossa história. Além das edificações, propriamente ditas, também passam a figurar como patrimônio, conjuntos arquitetônicos, como por exemplo, os bairros e também sítios históricos como fazendas, vilas, casarios, terreiros de candomblé, etc. Um patrimônio mais diversificado e plural, que espelha o conjunto da sociedade em seus vários momentos históricos.

(ARCHIVOZ): A senzala da Fazenda da Lapa de Campinas, onde hoje está sediada a Sociedade Hípica, é uma das únicas edificações remanescentes do conjunto original da fazenda, e também um dos poucos exemplares ainda existentes na região. Gostaria que a Professora falasse sobre este patrimônio, tão importante para a história da cidade.

(S.Z.): O conjunto da Fazenda da Lapa está inserido no recorte histórico que compreende a segunda metade do século XIX, período que contextualiza o surgimento e apogeu da fazenda enquanto produtora de café. Nesse sentido, é exemplar de uma tipologia própria da região campineira[1]. Sobre o patrimônio arquitetônico rural, no geral, encontramos maior número de remanescentes das sedes de fazenda de café e das casas-grandes dos engenhos. É mais difícil encontrar o conjunto completo de edificações destas propriedades rurais. Em Campinas, especificamente, temos duas situações distintas: engenhos de açúcar que foram transformados em fazendas de café e as fazendas de café propriamente ditas. No primeiro caso, tanto a casa senhorial como as instalações produtivas foram transformadas para atender às novas exigências produtivas e nesse sentido, as demolições e novas construções foram acrescidas aos novos complexos produtivos rurais.

A Fazenda da Lapa foi fundada, em 1849, é fruto de desmembramento do Engenho Mato Dentro. O conjunto arquitetônico original foi especificamente construído para atender ao processo produtivo cafeeiro, e constituiu importante exemplar da tipologia arquitetônica das fazendas de café da região de Campinas[2], região esta, que corresponde a do segundo período de expansão cafeeira.

As fazendas de café eram praticamente autossuficientes, seguindo o mesmo conceito dos engenhos, onde quase tudo era produzido ou criado “in loco”: moradia, alimentação, materiais de construção, vestiário, criação de animais etc. A organização da lavoura cafeeira, assim como a do açúcar, era baseada na monocultura exportadora e no trabalho escravo, posteriormente substituído pelo trabalho livre do imigrante. Como propriedade rural autossuficiente, o complexo arquitetônico edificado das fazendas de café tinha como objetivo atender todas as exigências necessárias ao seu pleno funcionamento.

As residências (do senhor e dos escravos), tulha, beneficiamento, escolha, terreiro e a área de serviços secundários à produção eram construções formuladas individualmente, mas com estreita relação ao novo personagem: o terreiro de secagem. Em síntese, as edificações que compõem o conglomerado “cafezista” eram as seguintes: Sede – moradia do grande proprietário rural; Terreiro – que se destinava à secagem do café; Tulha – grandes edifícios para armazenamento do café; Casa-de-máquinas – edifício específico para abrigar as máquinas destinadas ao beneficiamento do café; Capela; Muros de taipa – os limites do conglomerado eram demarcados por extensos muros de taipa de pilão; Senzalas – em geral, constituíam-se de um edifício alongado dividido em lanços sucessivos, coberto por um único telhado corrido de duas “águas”, que poderia ser em linha ou em quadra. Quando em quadra era designado de “curro” ou quadrado. Esta disposição em “curro” era própria de fazendas com grande número de escravos (caso da Fazenda da Lapa), pois este partido facilitava o controle da escravaria.

A sede da Fazenda da Lapa era um grande sobrado, de implantação à meia encosta, com paredes de taipa de pilão e divisórias de pau-a-pique. Um misto do sistema construtivo paulista e mineiro. Um “sobradão” com planta em “L” e telhado de quatro “águas”. No primeiro lanço ficavam as salas, no intermediário os dormitórios e alcovas, e no lanço posterior a grande varanda. No prolongamento que formava o “L”, estavam situadas a cozinha e dependências de serviço. Uma escada central à frente da sede fazia a ligação entre jardim e o nível da moradia, que se desenvolvia neste piso. O nível inferior possivelmente, utilizado como depósito. Uma construção lateral alinhada à sede se prolongava até o quadrado, possivelmente esta edificação teria sido a primitiva senzala da fazenda. Um grande quadrado de senzalas abrigaria posteriormente uma vasta escravaria: aproximadamente 155 escravos inventariados em 1868. Extensos muros de taipa fechavam o conjunto, restando hoje apenas um pequeno pedaço de muro contíguo à senzala. A tulha e casa-de-máquina ficavam num nível abaixo do terreiro. Acima deste conjunto agenciado em quadra, ficava outro terreiro provavelmente mais recente.

(ARCHIVOZ): Sílvia, como se deu o processo da sua investigação? Quais os documentos consultados e as informações levantadas, que sabemos, foram fundamentais para o processo de restauro do edifício da senzala em 1998, ano do cinquentenário da Sociedade Hípica de Campinas?

(S.Z.): O estudo sobre o conjunto edificado da Fazenda Lapa foi realizado a partir de fontes documentais primárias, da iconografia, dos relatos dos viajantes e principalmente a partir da consulta dos inventários de particulares que estão no Arquivo Histórico do Centro de Memória da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Estes materiais foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa e para a reconstituição hipotética do conjunto do edifício original. A partir das informações coletadas no inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, realizado em 1868, pudemos comprovar a existência de um contingente expressivo de escravos na Fazenda Lapa. Estavam registrados, no inventário, cento e cinquenta e cinco escravos, cujo montante total representava praticamente o dobro do valor das terras:

Benfeitorias e terras do sítio Mato Dentro de Baixo (Fazenda Lapa) correspondem a 94:300$000 mil réis;

155 escravos, no valor de 182:560$000 mil réis;

240 mil pés de café, no valor de 80:700$000 mil réis.

As terras e benfeitorias representavam 26,3% do montante total; os pés de café correspondiam a 22,6% e o lote de escravos… 51% restantes. Portanto, os dados contidos nos inventários fornecem importantes subsídios para pesquisas em variados campos disciplinares. No caso em questão, conseguimos comprovar, de um lado, a relevância econômica do escravo para o proprietário, e por outro, que o contingente expressivo de cento e cinquenta e cinco pessoas exigia um abrigo de grandes proporções, ou seja, uma senzala de grandes dimensões configurada de maneira a assegurar o controle do precioso bem.

Muitos inventários particulares do século XIX já estão disponíveis para pesquisadores no acervo do Arquivo Histórico do Centro de Memória da Universidade de Campinas. Sua consulta, obviamente, requer cuidados especiais para manuseio. São documentos originais, raros, e por vezes, em estado delicado de conservação. Quando realizei a pesquisa, entre 1998 e 1999, os inventários estavam disponíveis, exclusivamente, para leitura. O pesquisador podia copiar a lápis os dados que lhe interessavam. Cada acervo possui suas regras passíveis de alterações.

Em suma, posso asseverar que os inventários são fontes primárias essenciais para pesquisadores, contêm dados precisos, que podem fornecer subsídios para inúmeras análises. Uma ligeira visada sobre as designações do registro dos escravos da Fazenda Lapa permite identificar: origem, sexo, atividade exercida, e seus respectivos valores:

Procedência: Francisco Mineiro (1:000$000); Luiz Congo (2:000$000); Manoel Congo (700:000$000); José Pernambucano (2:500$000); Alexandre Baiano (1:900$0000). Atividade: Carlos cozinheiro (2:000$000); Trajano Copeiro (1:900$000); José Pedreiro (2:100$000); Antônio Monjolo (400:000$000); José copeiro (1:800$000); Joaquim Monjolo (400:$000); Benedito Monjolo (500$000); Francisco Alfaiate (1:200$000); Faixa etária: Anna Velha (50$000); Violante Velha (200$000); Caetano Velho (200$000); João Velho (50$000); Sebastião Velho (1:800$000); Firmina 13 anos (1:600$000).

(ARCHIVOZ): Agradecemos a Professora Silvia pela entrevista, e por nos contar sobre a importância da pesquisa com fontes primárias, que teve como um dos seus objetivos principais comprovar, e até mesmo desmistificar assuntos e temas tão importantes para a história brasileira, como a escravidão.

(S.Z.): Eu é que agradeço a oportunidade, agradecida por poder colaborar com a Archivoz. Os inventários podem ser consultados pessoalmente, pois ainda não foram digitalizados. Segue o site: https://www.cmu.unicamp.br/: Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D. Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.

 

[1] A fotografia do complexo cafezista da Fazenda da Lapa, registrada pelo fotógrafo suiço Guilherme Gaesnly, foi apresentada na publicação Il Brasile e gli italiani, obra patrocinada pelo governo brasileiro que tinha como objetivo atrair imigrantes italianos. Do lado esquerdo da imagem, ao fundo, o “quadrado” da senzala. Crédito fotográfico: Guilherme Gaensly,  Fazenda da Lapa, 1902 ou 1903. Coleção  Cartões Postais de Antônio Miranda. Centro de Memória da Unicamp – CMU.

[2] 1º Ciclo – região do Vale do Paraíba- primeiro quartel até meados do século XIX.

2º ciclo – região de Campinas – Oeste paulista – meados do século XIX e princípio do XX;

3º ciclo – região de Ribeirão Preto – “Novo” Oeste paulista – até 1930.

 

Referências bibliográficas

  • GOMES, Geraldo. Engenho & Arquitetura. 2ª ed. Recife: Fundação Gilberto Freire, 1998.
  • Il Brasile e gli italiani. Firenze : Pubblicazione del Fanfulla, R. Bemporad e Figlio, 1906.
  • Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D.Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.
  • MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba, c. 1830-1860. An. mus. paul.,  São Paulo ,  v. 13, n. 2, p. 165-188,  Dec.  2005 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142005000200006&lng=en&nrm=iso>. access on  10  June  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-47142005000200006.

Relatos de viajantes utilizados na pesquisa:

  • LAÈRNE, C.F. Val Delden. Le Brèsil et java. Rapport sur la culture du café en Amérique, Asie et Afrique. La Haye: martinus Nighoff, 1885.
  • MENDES, J.E. Teixeira. Lavoura cafeeira paulista (velhas fazendas do município de Campinas). Campinas: Instituto Agronômico do Estado, 1947.
  • RIBEYROLLES, Charles de. 1812-1860. Brasil Pitoresco: história, descrição, viagens, colonização, instituições. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.
  • TAUNAY, Affonso d’Escrangolle. A propagação da cultura cafeeira. São Paulo: Edição do Departamento Nacional do Café, 1934.
  • TSCHUDI, J.J. Von. Viagens às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976.
  • ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo: 1860-1861. São Paulo: Martins, 1976.